Entrevista com Carolina Wiehoff "Dançar é uma necessidade, um desejo tão forte que não dá para não fazê-lo"

É tempo de falar, ouvir, trocar...

Nesse contexto abrimos, aqui no blog da Associação Dança Cariri,  mais um espaço de conversa. Um lugar para pensar corpo, dança, artes e políticas na contemporaneidade.

São tempos de crises, obscurantismo e precisamos seguir juntos, refletindo e compartilhando modos de enfrentamentos. 



Nossa primeira entrevistada é  a bailarina/professora/gestora Carolina Wiehoff
Neste bate-papo Carol nos fala de sua iniciação na dança, a conquista da aceitação dos pais nessa profissão e principalmente seu olhar para a dança cearense, visto que a bailarina reside e atua em Fortaleza desde 2011. 

Neste momento, além de sua produção artística na  Staccato - Paulo Caldas e em outros projetos independentes Carolina Wiehoff,   está coordenando o Laboratório de Criação em Dança do Porto Iracema das Artes, um projeto que  tem como objetivo principal fomentar o desenvolvimento de processos de pesquisa em dança num campo expandido, segundo ela "um projeto único no Brasil que visa fomentar a pesquisa coreográfica e a criação em Dança". 

Nosso desejo é cada semana publicar um entrevistado

Desfrutem!



Você começou a dançar profissionalmente com a companhia do coreógrafo Renato Vieira, no Rio de Janeiro, mas como foi a sua iniciação na dança? Primeiros estilos e professores que teve contato?
Eu comecei a dançar aos oito anos, dança clássica, no interior do Chile, numa cidade do interior chamada Temuco, com um professor que tinha acabado de chegar de Santiago, Osvaldo Lizana. Ele foi um grande mestre e artista. Quando cheguei ao Brasil aos 12 anos, continuei com o balé e comecei a dançar Jazz com Renato Vieira na academia Carlota Portella. A aula dele estava mais alinhada com as técnicas da dança moderna, Limón e Horton.

Após essa fase inicial, quando decidiu seguir a dança profissionalmente?
A princípio, não achava que fosse conseguir me profissionalizar, viver de Dança. Na minha época nem tinha graduação em Dança no Rio de Janeiro. Eu sou formada em Economia! Mas jamais conseguir parar de dançar, fazer aulas e trabalhar com Dança. Era e ainda é uma necessidade. Fui indo, indo, indo até que não tinha mais volta. Meus pais não se conformavam, me achavam uma irresponsável! Somente, depois de anos aceitaram minha profissão e hoje se orgulham até.
Você tem laços com o Jazz Dance trabalhou com Renato Vieira Cia. De Dança, Companhia de Dança Deborah Colker e Stacatto, grupos com estéticas/poéticas muito distintas, mas que ao mesmo tempo com forte presença de movimentos mais técnicos,  “virtuosos”, nessa época como você via as danças contemporâneas mais conceituais, performáticas, teatrais e como as ver atualmente?
Há uns 25 anos atrás, a Performance não era tão difundida no Brasil. Eu simplesmente amava Dança teatro, que foi a linha que o Renato Vieira seguiu. A Pina Bausch foi sempre uma grande inspiração! Eu acho a Performance extremamente difícil. Adoro! Ao contrário do que muita gente pensa, existe um rigor técnico, muita pesquisa e ensaio envolvidos. Na maioria das vezes são utilizadas diversas técnicas de acordo com as demandas de cada projeto
Você já esteve em cena com grupo e sozinha, quais dessas  experiências foram mais desafiadoras, porquê?
São experiências completamente distintas com desafios diferentes. Adoro as duas modalidades.
As danças cênicas do Rio de Janeiro e Fortaleza dialogam, conquanto concomitantemente são muito diversas, é outra perspectiva de mercado, de difusão, de pensar e fazer dança. Como o seu olhar de fora percebeu a dança fortalezense na sua chegada?
O movimento de Dança aqui em Fortaleza sempre foi muito forte. Paulo Caldas e eu já frequentávamos a cidade muito antes de vir morar aqui. Desde que assumir a Coordenação da Dança no Porto Iracema das Artes tenho percebido mais claramente a vitalidade e riqueza da Dança Cearense.
No seu olhar, quais as principais potencialidades e fragilidades da dança fortalezense? Seja no âmbito da criação, formação ou difusão da mesma.
Há ótimas propostas artísticas com os mais variados assuntos. O grande desafio é realmente se aprofundar na pesquisa, mantendo uma rotina de ensaios e trabalhando, assim, várias camadas no processo. Depois da montagem, vem o desafio da circulação do trabalho. Houve conquistas incríveis na cidade com programas públicos de formação em Dança de excelência como a Vila das Artes, o CIDC, o Curso Técnico em Dança e a graduação em Dança da UFC. Esse formato de formação pública em Dança é única no país. No entanto, essas iniciativas não dão conta do estado do Ceará como um todo. Ainda há muito o que fazer. 
Como você ver a dança interiorana cearense? Existe diálogo entre a dança de Fortaleza e a dança interiorana?
A Dança no interior tem um potencial enorme!!! Tem uma vontade no fazer muito bacana. Acho que há pouco diálogo entre a Dança de Fortaleza com a do Interior. São necessários mais incentivos para a circulação de trabalhos artísticos pelo estado e nacionalmente.

Atualmente, você colabora na coordenação do Laboratório de Dança do Porto Iracema das Artes, qual é a importância deste projeto para a dança cearense?
Os Laboratórios de Criação em Dança do Porto Iracema das Artes são um projeto único no Brasil que visa fomentar a pesquisa coreográfica e a criação em Dança. Vários trabalhos artísticos nasceram no Porto.  Ainda é pouco. Devia haver várias escolas Porto Iracema pelo estado do Ceará que atendessem às demandas mais específicas de cada lugar, com mais projetos de formação inclusive.
Quais são as novidades no Edital do Laboratório de Dança do Porto Iracema das Artes para este ano de 2020?
Este ano, temos duas novidades nos Laboratórios de Criação em Dança. Agora serão selecionados 5(cinco) projetos (antes eram 4) e o valor do incentivo para cada artista aumentou para R$1.000,00
Em tempos de crise e obscurantismo no cenário político nacional.  Por que Dançar?
Uma vez, alguém me perguntou, por que abrir mais uma turma do Curso Técnico em Dança com um mercado de trabalho cada vez mais restrito?
Duvido que alguém escolha dançar para ganhar dinheiro. Dançar é uma necessidade, um desejo tão forte que não dá para não fazê-lo. É precisamente agora, que dançar tornou-se vital para continuar acreditando, para viver.
Como dizia Pina Bausch: "Tanzt, tanzt sonst sind wir verloren" (Dance, dance,  senão estamos perdidos).

Sobre Carolina Wiehoff
Bailarina e professora de dança. Pós-graduada emEstudos Avançados em Dança Contemporânea: pesquisa e coreografia, da UniverCidade-RJ. É bailarina da Staccato - Paulo Caldas desde 2004, participando dos processos de criação dos espetáculos Coreografismos, Pas Deux, Quinteto e Fonte. A Cia criado no Rio de Janeiro atua em Fortaleza desde 2011, quando os artistas Paulo Caldas e Carolina começam a residir em Fortaleza.

Professora de Dança Contemporânea do Curso Técnico em Dança do Ceará. Escola Porto Iracema das Artes;

Bailarina residente da Ocupação Karthaz Studio em Fortaleza, espaço-plataforma permanente e independente que incentiva e apoia a criação de espetáculos de dança no Ceará;

Bailarina-pesquisadora do Projeto Iracema, com Rosa Primo e Raisa Christina do Laboratório de Dança da Escola Porto Iracema com tutoria de Clarice Lima-SP;

Dança profissionalmente desde 1988, com a companhia do coreógrafo Renato Vieira. Em 1996, ingressou na Companhia de Dança Deborah Colker, onde permaneceu até 2003, sendo indicada para o Prêmio RioDança como melhor bailarina pelo espetáculo Casa. Trabalhou, também, como assistente de Deborah Colker na remontagem deste mesmo espetáculo na Komische Oper de Berlim.

Em 2004, dançou o solo Mulher Sozinha no Palco, coreografado por Renato Vieira, no projeto Solos de Dança do SESC, e participou do espetáculo Soma de João Saldanha. Lecionou jazz e dança contemporânea no Centro de Movimento Deborah Colker de 2005 a 2009


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