Conversa com o artista Thiago Gomes: "As forças opressoras e o retrocesso vigente sabem de nosso poder em união e constantemente criam estratégias para nos enfraquecer"

Cia Sintra Foto  Souza Junior

Queridos, em tempos de quarentena, que a gente possa refletir e pensar outros modos de ser/estar no mundo. Compartilhamos então essa deliciosa e pulsante conversa/entrevista realizada no início de março com o artista caririense Thiago Gomes, onde ele nos aponta caminhos/questões através do seu olhar/posicionamento perante a vida/arte. Nosso protagonista nos fala de sua trajetória, dos artistas que admira, das artes cênicas no Cariri/Ceará, relação interior/capital, a potencia da cultura popular, da importância do coletivo em tempos de crises e obscurantismo. 
Obrigado Thiago pela generosa partilha...

Apreciem sem moderação.

Como você iniciou no mundo das artes? E, mais especificamente na dança?

Poderia escrever inúmeras páginas para responder tais indagações, principalmente por, ao refletir sobre tais questões, evocar muitas reminiscências e diferentes gêneses. Também, por que me sinto sempre iniciando em Artes, há sempre algo novo, há sempre o que descobrir, e isso se multiplica, multiplica, multiplica. Remontando fragmentos da memória: em 2005 comecei a participar de aulas de teatro na escola (ensino básico) com o professor João Alves, e posteriormente, com a colaboração de colegas, compus um grupo de dança na escola. A partir dessas primeiras experiências, fui me envolvendo cada vez mais com a práxis artística. Em 2006, com a chegada do Centro Cultural Banco do Nordeste a Juazeiro do Norte, pude participar de inúmeras vivências, onde o contato e fruição em artes se intensificaram. Em dança, em meados de 2009, principiei como bolsista em aulas de Dança de Salão, em um projeto desenvolvido por Aline Lopes e Angelo Gomes, no SESC unidade Juazeiro do Norte. Posteriormente, iniciei aulas de Dança Contemporânea, Jazz Dance e Ballet Clássico como bolsista na Associação Dança Cariri e na Inspire Espaço de Dança. Esses são começos que norteiam minha experiência em dança e me impulsionam a seguir pesquisando-criando, latente.

 Quais foram os grupos que você atuou?

Tabllado (sob condução de Eleni Portela); Espaço de Dança Aline Lopes; NEET – Núcleo de Estudos e Experimentos Teatrais (SESC Juazeiro do Norte); Inspire Cia. de Dança (sob direção de Aline Souza e Luciana Araujo); Cia. Alysson Amancio; Atualmente, Coletivo Dama Vermelha (desde 2013) e Cia. de Artes Sintra (sob direção de Olivia Sintra).

Muitos de nós, consumidores das artes cênicas, sobretudo na condição de publico ainda temos, a necessidade de rotular, como você definiria o seu trabalho atualmente?

Essa é uma pergunta difícil de responder. Acho que a resposta mais coerente seria: acima de tudo, artista! Vejo-me nos entre-lugares, nos interstícios, e acho bonito perceber fronteiras borradas, campo expandido, liame e hibridismo entre linguagens. O meu trabalho, acredito (há muito que aprender/conhecer), situa-se num espaço de colisão e contaminação, atravessamentos, entre Teatro, Dança e Performance. Esse(s) lugar(es) me afeta(m).

Toque-me Foto Wiharley Rubson
Você cursou a Licenciatura em Teatro da URCA, qual o impacto da Universidade no seu trabalho artístico?

O Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Regional do Cariri (URCA) me expandiu olhares e perspectivas. Antes de entrar no curso, era um adolescente sonhador, que queria aprender TUDO sobre teatro. Ao concluir a graduação, sai com mais perguntas, questões, dúvidas, que quando entrei, e, ainda, com muitos sonhos/metas. O curso, sobretudo, foi me possibilitando caminhos possíveis (assim como abrindo fissuras e pulsões) e uma compreensão mais ampliada sobre a articulação da tríade artista-pesquisador-professor, que está sempre intrínseca em meu ofício. Acredito que, o curso de Teatro e eu, tivemos uma relação intensa, investigativa, delicada em alguns momentos, invadida por muitos aprendizados, mas, principalmente, apaixonada. Aprendo constantemente com essa relação.

Quem são os artistas que você admira?  Eles influenciam o seu trabalho, como?

Eu admiro muitas pessoas, especialmente, aquelas que estão próximas e que vejo seguindo, se reinventando, transformando, produzindo, criando, resistindo na lida com arte. Admiro, com muita força e amor, as/os artistas do Coletivo Dama Vermelha, que me inspiram e me revigoram, tornando os sonhos possíveis. Sou muito apaixonado por esse grupo. Acho que uma grande influência é trabalhar com pessoas que você admira, respeita, nutre carinho-afeto e que somam contigo. Isso é extremamente importante. Há outras inspirações mais distantes (presentes e não-presentes), que estão no ar, que irrigam o meu trabalho com coragem, com fome/sede/tesão de pesquisar, conhecer e desbravar o que não sei, com sangue nos olhos e fogo nas patas para sempre aprender. As/os artistas que admiro e me influenciam estão muito articuladas/os a partir da materialização de seus ideais, das questões que lhe concernem, de suas verdades (são tantas possíveis), da coragem e know-how de fazer visível o invisível.

Borboletária
Como surgiu o ‘Coletivo Dama Vermelha’? Quais foram os espetáculos criados? Quais são as principais características deste grupo e como ele trabalha atualmente?

O Coletivo Dama Vermelha surgiu em 2013 através do Curso de Licenciatura em Teatro da URCA, impulsionada pela criação do exercício cênico “Avisem que faz mal” com a turma 2013.1, orientada pelo Profº Marcio Rodrigues, e pelo desejo de seguir apresentando o exercício cênico e prosseguir pesquisando criação artística híbrida entre teatro, dança e música. Os espetáculos criados pelo grupo, até então, são: “Avisem que faz mal” (2013), “Reminiscência” (2013), “Borboletária” (2014), “Toque-me” (2015), “Bradosil” (2016), “Que horas ela vem para o chá?” (2016), “Eu e Minhas Cabeças Avessas” (2017), “Manifesto” (2018), “Sono de Cancra” (2018), “Tempo-Relógio” (2018), “Balada ou sobre as desilusões que te fazem dançar e chorar à espera do amor que não vem ou sobre a descoberta de que tudo não passa de uma doce mentira e você está só” (2019), “SonhAlice” (2019), “Autofagia” (2019), “PARTidas” (2019). O grupo, desde 2013, se transformou muito – e se transforma, essa é uma característica importante; somos um grupo independente que desenvolve processos criativos a partir da consonância das pesquisas e questões de seus atuais membros (Joelma Silfer, Júlia M. Valério, Larissy Rodrigues, Paulo Andrezio, Penha Ribeiro, Taynaria Romão, Thiago Gomes); a característica principal do ‘Dama Vermelha’ é a hibridização de linguagens e códigos, visto o contato, fricção, contagio e permeabilidade das áreas de perquirição de suas/seus membras/os (acessibilidade, tecnologias, visualidades do espetáculo, teatro de rua, figurino, trabalho vocal, Performance...). O grupo tem trabalhado como um organismo, onde cada componente desempenha uma função específica a partir de seu campo de interesse, sem, contudo, engessar posições; procuramos maleabilidade, convergências, acordos e autonomia, num processo de aprendizagem constante. Em termos de trabalhos, temos estabelecido um espaço de encontro-treinamento-reunião, um espaço de estudo e discussão das linhas de pesquisa de cada membra/o e outro espaço de criação/manutenção de trabalhos. Estamos experimentando reinvenções/(r)evoluções possíveis.


Sem mim Foto Souza Junior
Como você ver a dança cênica atualmente na região do Cariri, e, mais especificamente Crato, Juazeiro do Norte?

A força da dança no Cariri Cearense é intensa e plural. Sempre falo que os corpos dançantes daqui têm muito calor e são banhados de sol, com uma essência ancestral vibrante. Isso fica bem claro, por exemplo, na realização da Semana Dança Cariri, o quão pulsante é a “noite cariri” do evento. A dança do interior está em movimento, criando lógicas próprias de existência. É importante destacar que, recentemente, pela primeira vez, um projeto de dança do Cariri foi contemplado no Laboratório de Criação do Porto Iracema das Artes (Tatá Tavares, Sinezia Ventura e Thiago Gabriel), o que é imensamente importante para a dança na região. É preciso que isso se multiplique cada vez mais. É notável também a realização de eventos pontuais na região, tais como Semana Dança Cariri, Festival Caldeirão das Danças, Mostra Unydence, Noite de Gala da Dança... mesmo avançando, é preciso ainda mais movimento, articulação entre artistas e mobilizações coletivas.

BR 116 Foto Souza Junior
As artes caririenses são muito visibilizadas em outros territórios sempre com muito enfoque nas culturas populares, como você ver esse diálogo entre as manifestações populares locais e as contemporâneas caririenses e como isso se dá no seu trabalho cênico?

Em 2018, participei de alguns módulos do projeto Escola Carpintaria da Cena – Formação Livre em Teatro e Tradição, promovido pelo Grupo Ninho de Teatro, onde pude me aproximar de tradições populares da região do Cariri Cearense, especialmente, através do contato com mestres/as da cultura e grupos de tradição popular locais. Esse encontro foi muito especial e importante em meu processo de formação, por perceber o quão rica, pulsante, revolucionária, multicolor, resistente é a cultura popular desta região, acrescida de uma simplicidade, dignidade, coerência, integridade que me atravessou de uma forma muito profunda. Na época, estava muito fascinado em pesquisar procedimentos de preparação/treinamento corporal a partir da percepção de princípios de tais manifestações, não com um olhar colonizador, explorador ou com interesse de copiar fôrmas/fórmulas, pois a cultura popular está viva, latente e se reinventa constantemente, ao passo que também potencializa a tradição e fala por si mesma. Mas, pensando como mobilizam corporalmente uma série de elementos e princípios consonantes também em outras tradições pelo mundo, porém singulares, dados os contextos locais. [Sim, eu estava lendo Eugenio Barba também.]. Não prossegui com a pesquisa, mas uma imagem/sensação sempre povoa meus pensamentos: contemplar Mestra Naninha falando sobre sua vida e experiências, e me emocionar com a riqueza de suas palavras compartilhadas com uma simplicidade, sutileza, verdade contagiantes. É sobre a riqueza da simplicidade.

A seu ver, o que poderia potencializar a dança na região do Cariri?

A articulação entre artistas/pesquisadores(as)/professores(as) de dança, assim como o apoio de profissionais de outras linguagens, é um primeiro movimento que identifico; quanto mais estamos unidos/as, mais fortalecemos a classe e construímos espaços potenciais para reivindicar avanços; quanto mais estamos unidos/as, para além das diferenças, fortalecemos as demandas e visibilidades de nossas questões; se estamos unidos/as podemos cobrar a criação/implementação de curso(s) de licenciatura/bacharelado em dança na região; podemos lutar pela descentralização de atividades/eventos/recursos, que muitas vezes se concentram apenas na capital; podemos mobilizar e construir mais eventos artísticos, acadêmicos, formativos; podemos solicitar que eventos como Bienal Internacional de Dança DO CEARÁ, Fendafor, entre outros, voltem a acontecer também no Cariri Cearense; que instituições localizadas na capital desloquem atividades para os interiores; que as instituições locais estejam mais abertas às nossas proposições; que tenhamos mais campos de atuação; que cuidemos de nossa formação/profissionalização; que possamos sobreviver de dança no interior do Ceará; que mais companhias/grupos/coletivos/ajuntamentos/artistas de dança possam surgir; podemos... [a lista é extensa, talvez distante, mas, sobretudo possível] se estivemos juntos/as, unidos/as e bem articulados/as.

Em sua opinião, como é o dialogo entre a dança produzida no Cariri e outras regiões cearenses, interiores e capital Fortaleza?

Um diálogo tímido, com alguns avanços, mas ainda pouco expressivo. Acredito que o trânsito/troca entre a dança caririense e outros interiores, bem como a capital, é ainda insuficiente. Diálogo é conversa, troca, partilha. É vinda, mas também ida. E poucas são as oportunidades que as instituições e órgãos locais (de interiores e capital) promovem de espaços de compartilhamentos entre regiões, de forma horizontal. É preciso ver e ser visto mais, discutir mais, partilhar mais, criar mais redes, possibilitar mais acesso e distribuição/circulação. Outrora pergunto: quer a dança produzida no Estado do Ceará circular no Estado Ceará?

Equipamentos e instituições governamentais que deveriam fomentar a dança no âmbito estadual, ainda pouco chegam à região do Cariri, como você enxerga esta ausência de políticas especificas para este território?

A ausência de políticas públicas para a dança na região do Cariri Cearense é desoladora e impede muitos avanços. Mesmo com o título de “celeiro cultural”, não alcançamos muitas ações que são desenvolvidas, a exemplo, equipamentos, editais, instituições que se localizam na capital. O acesso à informações/profissionalização/formações é ainda um pouco distante, sobretudo para aqueles que não possuem estrutura financeira para investir e ir até os grandes polos, onde se concentra as atividades/formações. Alcançamos ainda muito pouco (ou não alcançamos) de fomentos que são lançados a nível estadual. A falta de um plano de ações para a região, em especial de órgãos municipais, que fomente, incentive, profissionalize a produção em dança local, inviabiliza o crescimento e a expansão da linguagem, e até mesmo a subsistência e o surgimento de grupos/artistas. Há uma necessidade de ações contínuas, não esporádicas, e eficazes que amparem a dança, assim como outras linguagens artísticas que se desenvolvem no interior do Estado.

Estamos vivendo um momento de crise e retrocesso no cenário nacional, as artes, estrategicamente, têm sido uns dos principais bode expiatórios dos governos Temer e Bolsonaro, em sua opinião como resistir as obscuridades?

Acredito muito na potência dos ajuntamentos; esse é um momento que a classe artística deve estar mais junta, estreitar os laços, fortalecer e impulsionar o trabalho do outro e vice-versa, pensar em um interesse comum. Precisamos mobilizar familiares, amigos/as, comunidades, entornos. Nesse momento, é preciso criar, fortalecer e expandir as redes. As forças opressoras e o retrocesso vigente sabem de nosso poder em união e constantemente criam estratégias para nos enfraquecer, desvalorizar, entristecer, apagar, desmerecer. Juntos/as (reafirmo: acredito muito nisso), podemos nos sustentar, criar caminhos e soluções desviantes às estratégias nefastas, e driblar essa maré perversa e imoral que assola o nosso país.

Você participou de processos formativos com dois nomes importantes da dança internacional Marcelo Evelin e João Fiadeiro, como foram esta experiências? Qual é a importância dos intercâmbios?

Foram experiências muito significativas e desestabilizadoras. O encontro com o Evelin me provocou inúmeras questões e me fez pensar sobre peles, contato, o outro, redes, desprotagonismo, corpo coletivo, investigação, potência de uma manada, sobre percepção-sensação-do-corpo-no-corpo-no-corpo-do-outro, sobre medos e limites que impomos ao corpo, e, principalmente, sobre a necessidade latente de trabalho (sentia constantemente a necessidade de estar ali trabalhando, durante horas). O encontro com o Fiadeiro foi um espaço de muitas descobertas e fricções, de dúvidas, de percepção dilatada, de extrema atenção, de cuidado e afirmação, de com-posição-com, de relação, de virtuais múltiplos, de campo expandido, de outras possibilidades de estar, mover, propor, observar, somar. Tive muita sorte em vivenciar tais encontros e de, a partir desses, repensar minha práxis artística, ampliar horizontes, estar mais atento, poroso, aberto. Outras experiências com artistas nacionais tiveram também importantes reverberações, a exemplo, Lenora Lobo, Luciana Lara, Lina do Carmo, Camila Fersi, Suely Machado, artistas inspiradoras cujo encontro foi imensamente necessário em meu processo de formação (contínuo).

Quais os seus próximos projetos?

Seguir em trabalho e reinvenção juntamente ao ‘Dama Vermelha’, expandindo, revendo e potencializando criações-pesquisas; estou estudando para pleitear ingresso na pós-graduação (mestrado); iniciei aulas de sapateado e sigo aprendendo; estou muito interessado nas palavras “ajuntamento” e “fuleragem”, talvez isso seja o mote para alguma coisa, talvez; em breve, algumas parcerias e partilhas com artistas locais e nacionais. Avante!

O que você diria para um artista cênico iniciante ou um estudante que deseja ingressar no mundo das artes?

Cinco coisas. Vamos lá! Meu top cinco motivacional:
a primeira frase que ouvi ao iniciar no teatro: “tenha coragem”;
2º “Acredite em seus sonhos, trace metas, deixe-se atravessar”;
“As vanguardas nunca morrem”;
Parafraseando Fernando Pessoa: “Viver não é necessário. O que é necessário é criar”. Só a criação importa.
“Nunca aprenda, esteja sempre aprendendo, tenha fome de aprender”.




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